I
Pretendo que esse nosso encontro seja uma diálogo, como os velhos diálogos, onde ainda era possível a negociação de significados e, até mesmo, a contemplação do sentido. Oxalá, neste diálogo, a escuta seja uma prática possível, não como adiamento no tempo ou como espera ansiosa, mas como a acolhida da diferença que se manifesta apertada na nossa estreita capacidade de linguagem.
A linguagem tem limites, dizia Wittgenstein, a nossa verbalidade é estreita, diria Lévinas, mas é necessário reafirmar que a linguagem é nosso último horizonte de esperança, isto, no caso de que ainda haja algo que esperar, como diria Bloch.
Espero que as nossas negociações, no fio da linguagem, sejam equilibradamente críticas e propositivas, já que, um investimento como esse, de pessoas e tempos, requer algum tipo de resultado, se não construtivo, que ao menos aponte para alguma perspectiva de construção.
Por firme decisão, não aposto no esquecimento, aposto na capacidade de retenção da fluida corrente de linguagem, por isso, desejo recordar e beber do néctar inebriante do logos que flui através dos tempos. Desejo recordar pontualmente dois acontecimentos, a saber: um relacionado à Filosofia e outro relacionado à Psicologia.
II
Faz alguns anos fui convidado para uma Semana de Filosofia na UCDB, em Campo Grande. O tema da Semana Filosófica era, para a minha limitada compreensão, assustador: nada mais e nada menos que FILOSOFIA CLÍNICA.
A primeira reação que esbocei ao tema do evento foi idêntica àquelas esboçadas pelo homem de quem sou filho, quando se via diante de algo inusitado, exclamava em tom de casa cheia: “Que… que é isso?”
Durante a Semana Filosófica escutei uma série de conferências realizadas pelo Dr. Lúcio Packter, quem foi apresentado como fundador da Filosofia Clinica no Brasil. Não vou entrar no mérito das exposições feitas pelo Dr. Packter, desejo me fixar nos desdobramentos posteriores a sua estada entre nós no Curso de Filosofia.
Era de esperar-se e, de fato, assim aconteceu, que o Tema da Filosofia Clínica criasse uma serie de debates muito interessantes no Curso de Filosofia. Não faltou quem se pusesse a enumerar com rigor lógico razões suficientes para invalidar qualquer possibilidade de relação entre os vocábulos filosofia e clínica. Por outro lado, houve quem, muito animadamente, investiu nas novas possibilidades de mercado de trabalho da Clínica Filosófica.
De minha parte, inicialmente guardei um prudencial e quase hipoglussêmico silêncio e, mais tarde, comecei, inspirado nos passos de Martin Heidegger em “Ser e Tempo”, a ensaiar algumas perguntas sobre este inusitado e interessante acontecimento teórico e pratico chamado de Filosofia Clínica.
Fazendo memória de águas mais recentes, tive a feliz oportunidade de compor, como especialista em Epistemologia da Ciência, um grupo de Pesquisa na área da Psicologia Social com uma especial ênfase em Psicologia da saúde. O grupo está vinculado ao Mestrado em Psicologia da UCDB, institucionalmente reconhecido e registrado no CNPQ.
A participação neste grupo me colocou em contato com um rosto da Psicologia que nunca havia visto claramente antes. Encontrei uma Psicologia que se debate no problema de sua própria identidade tanto no que respeita ao exercício profissional, pelos comprometimentos biomédicos da palavra clínica, quanto nas suas pesquisas, ao se deparar, de caso para caso, com a insuficiência dos métodos, tanto quantitativos como qualitativos, na abordagem do seu “sui generis” objeto/sujeito/conceito.
Estas discussões, das quais venho participando de uma maneira cautelosa e respeitosa, me sugere, desde a perspectiva filosófica da epistemologia a pergunta que interroga pelo estatuto epistemológico intrínseco da psicologia como ciência (pesquisa/intervenção, clínica, etc).
III
Cuidando de não insinuar nem cair em nivelamentos ou igualações, me parece plausível sustentar como hipótese que o advento da Filosofia Clínica e as interrogações da Psicologia sobre sua identidade como Ciência, colocam a Filosofia e a Psicologia diante de um mesmo problema filosófico.
Sem dúvida, sobre este dois acontecimentos, é possível elaborar muitas perguntas e, a maioria delas, pertinentes. No entanto, desde a perspectiva da Filosofia é necessário elaborar aquelas perguntas que são estritamente filosóficas e orientadas ao âmbito de uma possível fundamentação ou não, por um lado, de uma prática de clínica filosófica e, por outro, da Psicologia como Ciência teórica e prática.
Muito embora tenhamos sido assombrados por uma Filosofia que se diz clínica e por uma Psicologia que está sendo capaz de colocar-se em questão, o nosso ponto de partida, pelo lado da Filosofia, não é a existência ou não de uma práxis filosófica na modalidade da clínica e, pelo lado da Psicologia, não é fato de que a Psicologia seja ou não uma Ciência plenamente reconhecida.
A nossa pergunta não é aquela que interroga pelos argumentos de validação que poderiam, por um lado, dar cabida às praticas clínicas filosóficas levadas hoje a cabo e, por outro, demonstrar a autoridade da Psicologia pela sua história e tradição.
Também não estamos preocupados, neste momento, com a autoridade do Filósofo ou do Psicólogo para o desempenho daquelas atividades profissionais que se encontram ancoradas no conceito de clínica. Entendemos que esta autoridade é derivada, no primeiro caso da Filosofia e, no segundo, da Psicologia.
Não estamos preocupados, por enquanto, em disputar com outras especialidades prático-teóricas as fatias de mercado que estão em jogo quanto se trata de temas relacionados ao atendimento clínico de pessoas. Entendemos que o direito ao mercado é igualmente derivado.
A nossa preocupação recai sobre uma pergunta que pode e deve ser feita ainda quando não houvesse prática de clinica filosófica ou uma respeitada historia da Psicologia.
No caso da Filosofia, a nossa preocupação versa sobre a pergunta que interroga pelo estatuto-epistemológico-clínico da ciência filosófica que permite, caso exista, a extensão, por direito, de um braço de ação na linha da clínica. É necessário perguntar pela autoridade clínica da filosofia antes de debater a autoridade profissional do filósofo clínico. É necessário perguntar até onde se estende o caráter epistemológico-clínico da filosofia antes de confrontar outras ciências que partilham este mesmo caráter na discussão da demarcação de limites, tanto teóricos como práticos, bem como estabelecer uma linha de colaboração mútua.
No caso da Psicologia, dentro do contexto do Grupo de Pesquisa de “Modelos Epistemológicos e Produção de Saúde”, vem surgindo intuições em vias de sistematização que apontam para a necessidade de permitir que se aflore a pergunta que interroga pelas condições epistemológicas que possibilitem à Psicologia operar como ciência no âmbito da pesquisa/intervenção e da clínica, articulando as ferramentas quantitativo-descritivas (juízos de fatos) e qualitativo-interpretativas (juízos de valor), criando, deste modo, um interstício metodológico que permita uma síntese teórica e pratica das exigências qualitativas e quantitativas do seu objeto/sujeito/conceito.
Para poder chegar a circunscrever o estatuto-epistemológico-clínico da Filosofia e as condições epistemológicas da Psicologia como Ciência descritivo-interpretativa aplicada, me parece necessário dar alguns passos metodológicos:
a- investigar os compromissos epistemológicos implícitos nas categorias Filosofia e Clínica, tanto na teoria como na prática; investigar os alcances e as limitações, tanto da descrição como da interpretação em relação ao conjunto de problemas manifestos pelo objeto/sujeito/conceito da Psicologia.
b- determinar se na existência humana existe uma área sobre a qual corresponderia à filosofia atuar de forma clínica; determinar se nas manifestações do objeto/sujeito/conceito se encontram estruturas que requerem necessariamente de quantificação de qualificação.
c- Em caso positivo, determinar se a filosofia é capaz de atuar assertivamente sobre esta área da existência humana com o seu marco teórico e ferramentas próprias; determinar se a Psicologia, ao longo de sua história, desenvolveu as ferramentas de abordagem teórico-práticas para dar conta destas demandas quantitativo-qualitativas.
d- determinar se é necessária, para o ente humano, esta intervenção filosófica sobre esta área da existência humana; determinar se as abordagens quantitativa e qualitativa são necessárias e indispensáveis, conforme a estrutura intrínseca do objeto/sujeito/conceito da Psicologia.
e- determinar se existe uma modalidade de intervenção que é exclusiva da filosofia e não pode ser realizada por uma outra ciência; determinar se existem elementos estruturais do objeto/sujeito/conceito que exigem quantificação e não qualificação e outros, que exigem qualificação não quantificação.
Uma vez clarificados estes e talvez outros pontos, no caso da Filosofia, estaremos muito próximos de um modelo teórico de demonstração da possibilidade, da necessidade e da insubstituibilidade ou não da ação filosófico-clínica sobre a existência humana.
Já no caso da Psicologia, estes cinco pontos, poderiam ajudar numa reflexão mais profunda sobre uma ciência psicológica com autoridade própria, capaz de articular de forma inteligente, como meta-ciência rigorosa, as exigências de quantificação e de qualificação intrínsecas à complexidade própria do seu objeto/sujeito/conceito.
Depois disso, para a Filosofia, dependendo dos resultados até aqui obtidos, seguem os temas da delimitação epistemológica, profissional e de mercado em relação a outras especialidades. Segue também o tema das parcerias com outras especialidades. Naturalmente chegará o momento de pensar na formação do profissional e na regulamentação da atividade profissional. Para a Psicologia segue a grande aventura do saber como teoria e prática rentável, tanto profissionalmente quanto em relação à grata satisfação dos resultados do aprimoramento do cuidado do outro e de si mesmo.